Imagine viver em uma sociedade onde o medo corre pelas suas veias vinte e quatro horas por dia. Imagine ter medo de andar nas ruas por receio de topar com uma das gangues que cometem atrocidades durante a noite. Imagine estar na tranquilidade da sua casa, junto ao seu marido e ser estuprada por adolescentes mascarados no meio da noite. Imagine ser uma senhora que mora sozinha e ter sua casa invadida por um menino de dezesseis anos, que te espanca e tenta te roubar. Conseguiu imaginar? Sentiu o medo? Pois é, na sociedade do futuro tudo isso acontece através da história criada por Anthony Burgess, escritor britânico, que inventou toda essa história chamada Laranja Mecânica.

A obra de Burgess ganha vida através da narrativa do adolescente Alex, líder da gangue que reúne mais três rapazes. É durante a noite que eles saem às ruas para cometer todos os tipos de delitos contra as pessoas que estão voltando para casa ou indo para algum lugar, ou até mesmo contra quem está na suposta segurança de suas casas. O clássico, que foi lançado em 1962, é conhecido e comentado até hoje porque aborda um tema muito atual: até onde o Estado tem o poder de interferir na vida das pessoas? Daí você se pergunta: mas o que isso tem a ver com esse jovem violento e os crimes cometidos por ele?



Em determinado momento da história, Alex é pego pela polícia e após dois anos, serve de cobaia para um novo experimento do Governo. Eles julgam que a prisão não é nada menos que inútil para a solução dos crimes cometidos por esses jovens delinquentes e resolvem testar um novo método, chamado Ludovico, para afastar, definitivamente, esses jovens do mundo do crime. O problema é que esse teste acaba sendo ainda mais violento do que os crimes que Alex praticava pelas ruas. Eles garantem que em apenas quinze dias, ele estaria apto a voltar a viver em sociedade e isso realmente acontece. O problema é que ele não consegue mais pensar por si mesmo.

Alex deixa de ser um menino violento para se tornar um fantoche mecânico. E daí surge o nome da obra. Ele não tem mais a liberdade de pensar por si, porque o que ele sofreu durante esses quinze dias recebendo esse "tratamento", mexeu tanto com a cabeça dele, que só de ouvir falar em violência, ele sente enjoo e dor de cabeça. Para passar a sensação de desconforto, ele acaba atuando como um menino bom e educado, fingindo ser o que não é e chegando a tentar o suicídio. O Estado, que tinha a intenção de "salvar" os cidadãos, acaba destruindo psicologicamente uma garoto de dezoito anos, que acabou solto, mas com distúrbios graves.  

Anthony era um autor tão genial que criou um dialeto para caracterizar a forma como Alex e sua gangue se comunicava. A linguagem Nadsat é uma mistura de palavras derivadas do russo e do inglês, que caracteriza uma sátira a sociedade britânica. As gírias traduzidas para o português beiram a infantilidade e acabam confundindo e incomodando o leitor durante as 224 páginas. Quem for pouco paciente pode abandonar facilmente a obra, mesmo que, no final, haja um glossário com todas as palavras criada pelo autor.

Burgess escreveu esse livro quando ele havia recebido o diagnóstico que teria pouco tempo de vida. Preocupado com a condição da suposta viúva, ele trabalhou arduamente para que várias livros fossem lançados e ela conseguisse sobreviver com os direitos autorais do falecido marido. A sorte foi que o médico errou a conta e ele viveu por mais quarenta anos após o errôneo diagnóstico. Sua morte só veio acontecer em novembro de 1993, aos 76 anos.


Um Comentário

  1. O autor viveu cada dia como se fosse seu ultimo, quer coisa melhor?
    Amei a resenha, passa lá no What's Next para conferir minhas resenhas também.
    Até mais

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